Eu acredito em Deus.
Mas talvez o meu Deus seja diferente do seu, assim como (com certeza) deve ser diferente do Deus do Hosaka, do 233 e da Nihil. É diferente do Deus do Velho Testamento, que vejo como uma criatura rigorosa, exigente e que castiga os seus filhos ao menor deslize. É semelhante ao Cristo - suave -que perdoa e entende as falhas de todos nós.
Os meus "primeiros contatos" com Deus creio que foram através de minha avó materna, que pacientemente me ensinava religião em uma Bíblia ilustrada. Lembro-me até hoje, com incrível nitidez, de Jesus, dos anjos e dos demônios dessa Bíblia. Os anjos e Jesus eram lindos, envoltos e luz e transmitiam paz. Os demônios eram em tons cinza, com garras, dentes e asas iguais às de morcego. Lembro-me de minha avó mostrando a passagem do Evangelho, onde Jesus dizia "deixar vir a mim os pequeninos", onde Ele aparecia rodeado de crianças na ilustração.
Isso causava em mim vontade de ir ter com Jesus. Uma vez cheguei a colher flores e fiquei um dia inteiro atrás de minha avó para que ela me dissesse onde Jesus estava, pois eu queria lhe entregar as flores pessoalmente. Custei a entender que apesar de vovó ensinar que Jesus existia, Ele não podia receber minhas flores (somente o perfume delas), ele não tinha endereço, casa, cic e rg.
Vovó tinha mania de quadros de santos. Tinha vários deles esparramados pela casa. No seu quarto havia um que me impressionava: eram duas crianças brincando com uma bola perto de uma espécie de penhasco e logo atrás delas um anjo. Pacientemente ela me explicava que o anjo protegia as crianças enquanto elas brincavam e esse- no caso- não deixava as criancinhas despencarem no precipício. Impossível entrar no quarto dela sem ficar olhando o quadro. A infância é a fase mais feliz e inocente da vida.
Muitas vezes questionei o porquê dos santos estarem sempre sérios nos quadros. Se era necessário sofrer para ser "santo". Vovó sempre me olhava com desaprovação quando eu fazia perguntas insistentes e que ela não sabia responder. Às vezes ficava em silêncio. Às vezes praguejava:
- Deus castiga, menina!
Ela havia sido católica fervorosa antes de conhecer meu avô. Dizem até que ela iria ser freira. Mas meu avô mudou tudo... Ele era Espírita lá pelos anos de 1920, naquela época em que o Espiritismo era visto como algo feio e meio proibido. Ele foi palestrante em um centro Espírita e fez uma coleção enorme de livros e revistas sobre o assunto. Pude ler exemplares antigos do "Reformador", e outra revista que não me lembro o nome onde vi pela primeira vez fotos do fantasma de "Irmã Josefa", o que me tirou várias noites de sono.
Em casa ouvia que havia céu e inferno. E também purgatório, que era aqui mesmo na Terra, onde ficavam alguns espíritos. O Espiritismo já ensinava que havia vida após a morte e que havia um outro "mundo paralelo", para onde iriam as pessoas depois da morte, sem ser necessariamente um céu ou um inferno. Vovó que ficou viúva bem cedo, acreditava que meu avô a estava esperando do outro lado da vida, conforme promessa feita por ele mesmo, antes de morrer.
O quintal da casa de minha avó era vizinho do quintal de uma Igreja Evangélica, "Igreja Universal do Reino de Deus". Eu me lembro que todo domingo tinha música, pois a igreja tinha uma banda ou algo parecido. Uma vizinha era frequentadora assídua dessa igreja. Ela era costureira de mão cheia, e a maior parte do dinheiro que ganhava, ela dava para a igreja, pois acreditava que só assim Jesus podia ajudá-la a crescer na vida. E ficar livre das tentações dos demônios.
Lembro-me também de outra vizinha, cujo filho tinha problemas mentais. Todos comentavam que ele era saudável, até o dia que começou a tomar pinga das macumbas que achava nas encruzilhadas. Diziam que era castigo (?). Desde então a mãe dele passou a sofrer muito e teve que internar o pobre coitado em uma espécie de casa de repouso. Hospício.
Todos os acontecimentos eram devidamente assimilados e analisados por mim, na infância e adolescência. E a conclusão era de que a vida era realmente um mistério muito grande.O Deus da Igreja Católica havia estabelecido o Céu, o Inferno e o Purgatório, para onde as pessoas deveriam ir depois da morte e lá ficar eternamente, se fossem boas, más ou mais ou menos, respectivamente. O Deus Evangélico - já naquele tempo - pedia dinheiro para que o crente tivesse salvação.
Um deus que eu não entendia muito bem, deixava o rapaz que bebia pinga de macumba no hospício. O Deus do espiritismo dizia que havia vida após a morte e reencarnação.
Os homens bomba dizem morrer por seu Deus. O WTC foi explodido em nome de Deus. Há lugares onde cristãos são odiados. Judeus são odiados. Muçulmanos são odiados.Todos são incompreendidos por causa de deus.
Muitas vezes ouvi pessoas falando:
_"Sabe Fulano? A vida dele vai mal porque ele não tem religião".
_"Conhece Beltrano? O filho dele nasceu com problemas porque ele é muito fofoqueiro e Deus castigou".
Definitivamente, tenho um Deus diferente.
Bem diferente do Deus pedagógico do 233, literalmente interpretado da Bíblia, literalmente traduzido do hebraico e do grego, respeitando todas as vírgulas e parágrafos.
Também é diferente do Deus que castiga os fofoqueiros e os sem-religião. E dos que se explodem.E dos que pedem dízimos e confissões.
"Ninguém vai ao Pai senão por mim", foi a frase dita por Jesus. Acredito. Um dia na minha infância procurei desesperadamente por Jesus para entregar flores e me aborreci porque não O encontrei. Fiquei dias olhando a gravura na Bíblia e invejando as crianças que estavam ao Seu lado.
Você cresce, amadurece e conhece pessoas que oferecem visões novas da vida e consequentemente do Criador. Há pessoas alegres e comunicativas, que sempre enxergam uma luz no fim do túnel nas piores dificuldades, enquanto há outras depressivas onde parece haver sempre uma nuvem negra por cima de sua cabeça. Há aquelas que sempre colocam você para cima e há aquelas que sempre querem você para baixo. O Bagavad Gita traz uma grande citação que é o seguinte: " na vida, se você fizer sucesso, ganhará alguns falsos amigos e muitos verdadeiros inimigos". Pura verdade.
Infelizmente, na maioria das vezes, bonzinho só se ferra!
Muitas vezes me aborreci e chutei o balde. Xinguei, descabelei, blasfemei. Arrependi.
Há horas em que é difícil dialogar com alguém que não se vê, não se ouve a voz, uma palavra de consolo e ainda - dizem- tem o poder de castigar quando contrariado! Deus há de entender que realmente nosso psicológico fica abalado. Que errar é humano e perdoar é divino. Ele não haveria de criar tantos filhos para deixar ao acaso e ao sofrimento físico ou espiritual.
Infelizmente Deus não poderá vir escrever aqui no Blog, nem responder à pergunta feita pelo Hosaka. Não da maneira que ele deseja, talvez de outro modo.
Tenho certeza de que dia poderei entregar as flores para Jesus. Meu coração diz isso. Afinal, para chegar ao Pai, temos que passar por Ele. E eu acredito em Deus. Mesmo que "anothen" signifique "do alto" e não "de novo".
Amém.
Sonia Araújo
(Convém que assine meu verdadeiro nome!)