"O homem que se tornou Deus"(= livro), de Gerald Massadié
O retrato inédito de Jesus numa obra magistral e apaixonante.
Em que ano nasceu, na realidade, Jesus Cristo? Onde passou a
sua juventude? Quantos discípulos efetivamente teve? Porque é que Sinédrio o
condenou à morte? E porque é que, expondo-se a um inimaginável escândalo, dois
dos juízes do tribunal que o condenou decidiram reclamar o seu corpo a Pilatos?
Estas e muitas outras questões encontram resposta na
presente obra de Gerald Messadié que, ao longo de vários anos, investigou
exaustivamente todas as fontes disponíveis: os Evangelhos canônicos os Evangelhos ditos apócrifos, o Evangelho de
Tomás, os célebres Manuscritos do Mar Morto, as mais recentes descobertas
arqueológicas...
O Homem Que Se Tornou Deus» é o resultado desse longo e
complexo trabalho, levado a cabo com extrema seriedade e notável rigor científico
com o objetivo de trazer finalmente à luz, quase dois mil anos depois, fatos
que têm permanecido ocultos ou foram deturpados em sucessivas - e, em muitos
casos, tendenciosas - interpretações.
O texto abaixo foi retirado desse livro, mas descreve a
tortura de um ladrão e não a de Jesus.
Partindo do princípio que Jesus foi também crucificado, o suplício foi o mesmo.
“A rajada de vento cegava,
secava e enegrecia o sangue e também o suor que escorria pelas costas e
pernas do homem nu que arquejava ao subir a margem esquerda do Tyropéion. O
homem carregava nos ombros um madeiro de carvalho com quatro côvados de
comprimentos (02 metros) vazado no meio por um entalhe através do qual, para
equilibrar-se, havia passado o pescoço.
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O ladrão e os legionários começaram a subida do Gólgota. Não
era uma colina íngreme, mas o ladrão estava sem fôlego. Parou por um instante.
— Andando! — ordenou um legionário.
Chegaram, por fim, ao alto. Lá perfilavam-se cinco cruzes,
uma delas mais elevada que as outras. Havia também um simples poste, à espera
da trave que o ladrão lançou ao solo, arfando com toda a força dos pulmões.
Olhou as cruzes e estremeceu. Numa, pendiam os restos de um cadáver, a parte de
cima retalhada pelos abutres e a de baixo por outros predadores como as raposas e chacais, provavelmente.
As costelas do flanco esquerdo haviam sido descarnadas.
Faltava uma perna, levada pelos animais carniceiros depois que os carrascos
quebraram as tíbias. O pescoço, em particular, fora tão maltratado pelas aves
que o crânio sem olhos prendia-se ao tronco apenas por alguns ligamentos ressecados
e balançava ao vento, sobre o peito, como em uma negativa
obstinada.
Um legionário tomou a sentença que condenava Efraim à morte
por crucificação e estendeu-a ao carrasco-chefe de plantão. Este, visivelmente
míope, quase teve que enfiar o documento no olho direito para decifrá-lo.
— Efraim! — exclamou ele. — Mas é o nome do meu filho mais
velho!
Piscou, encarando o ladrão. Depois, estalou os dedos e dois
ajudantes agarraram o condenado pelos braços e o arrastaram até o poste. As
pernas do ladrão amoleceram. Puseram-no de pé e o encostaram à madeira.
Enfiaram-lhe nos braços laços corrediços de corda, apertados sob as axilas. O
carrasco-chefe,
empoleirado numa escada, fixava a trave no poste, por meio
de nós entrecruzados.
Quando a cruz terminou de ser armada, os auxiliares jogaram
as pontas livres das cordas por sobre a trave e içaram o ofegante ladrão, cujos
pés ficaram pendendo a menos de um metro do chão.
— Vamos! — mandou o chefe.
Os legionários mantinham-se a distância, para evitar o fedor
do cadáver apodrecido. O carrasco-chefe deslocou a escada e, firmando-a à
esquerda, tirou do grande bolso do avental de couro um cravo com um palmo de
comprimento e um martelo. Segurando o punho do ladrão, apoiou-o sobre a
extremidade da trave e tateou os tendões do braço, para sentir o lugar onde
introduziria o cravo, antes do pulso, entre o rádio e o cúbito. Começou a
enfiá-lo com um golpe vigoroso de mão,
até a profundidade de um dedo. O ladrão soltou um bramido que ecoou em torno da
colina do Calvário e subiu ao céu amarelado, onde atingiu sua plena estridência
e depois caiu para notas roucas, quase animalescas, entrecortadas de
espasmos.
— Bons bofes, hein? — comentou o carrasco-chefe. — Vão te
fazer durar mais um pouquinho!
Martelou o cravo. O ladrão chorava. O sangue pingava de seu
punho e caía na terra ressequida, formando manchas negras. O carrasco desceu da
escada e levou-a para o lado direito da cruz. O condenado tentou resistir: por
duas vezes, conseguiu livrar o braço das garras do verdugo, que esteve prestes
a perder o
equilíbrio. O carrasco, praguejando, prendeu afinal o pulso
do ladrão à trave e, sem tomar como antes tantos cuidados para localizar os
tendões, enterrou o segundo cravo com fúria, martelando-o até quase a cabeça,
enquanto o crucificado gritava, aos soluços.
— Agora podem soltar — ordenou o carrasco aos ajudantes.
As cordas foram afrouxadas e o corpo do ladrão caiu de
repente, sustentado apenas pelos cravos atravessados nos punhos. Suas espáduas
estalaram e seu rosto empalideceu. Um grunhido, tudo o que sua garganta
retesada pôde emitir, escapou de sua boca, enquanto os ajudantes desfaziam os
laços corrediços com a ponta de uma vara e enrolavam as cordas. O carrasco
tornou a descer da escada e enxugou a testa com as costas da mão. Curvou-se
sobre os pés da vítima. Com um único cravo, pregou-os, um em cima do outro,
sobre um barrote chanfrado que já fora preso à cruz. Em seguida voltou a
movimentar a escada e nela subiu para fixar sobre a cabeça do condenado uma
placa de madeira, na qual estava; gravada uma só palavra: "Ladrão".
Os legionários pareciam desinteressados do suplício.
Examinavam a cruz mais alta, no topo da qual fora pregada outra placa com a
inscrição: "Assassino". Sob a placa, o supliciado, ainda vivo, lhes
mostrava a língua. O carrasco lavou as mãos numa bacia, deu uma olhada no
ladrão, que babava, e aproximou-se dos
romanos.
Um legionário apontou o assassino com o queixo.
— Aquele ali tem cara de aguentar o tranco — considerou.
— Ora! — comentou o carrasco. — Ele está aí há mais de três
dias. Um zelote. Apunhalou um soldado. Vocês devem saber do caso.
— Ah, é ele!
O homem lá no alto, uma figura robusta, mirava seus
espectadores. A língua, inchada e roxa, projetava-se por entre seus lábios
descoloridos. Mas eram sobretudo as espáduas, separadas urna da outra até o limite
máximo, que revelavam seu sofrimento. O crucificado esticou um pouco o pescoço
e, com uma
voz rouca, disse:
— Porcos! Em resposta, o carrasco cuspiu, num frenesi de
ódio.
— Maldito filho de uma cadela! — resmungou.
Correndo a apanhar a escada e um porrete, subiu pelos
degraus até alcançar as pernas do supliciado e, com duas pancadas, partiu-lhe
as tíbias. O crucificado fechou os olhos. Seu corpo teso, até então sustentado
pelo barrote sobre o qual os pés estavam pregados, derribou-se. Instantes depois,
estremeceu. O carrasco, encarapitado na escada, sentiu-lhe o coração com o dedo
indicador, meneou a
cabeça e desceu, sorrindo.
— Este lixo foi-se! — exclamou. — O cachorro podia durar
ainda uma semana!
— Uma semana! — admirou-se um dos legionários.
— Dois anos atrás, tive um que conseguia até falar depois de
uma semana! E me xingava! — lembrou o carrasco, entre risos. O vento
envolveu-os. Tossiram.
— Não tenho mais nada a fazer por aqui e gostaria de tomar
uma cerveja — completou o verdugo.
— Eu também — concordou um legionário.
— Bem, vamos embora,
o garoto de vocês vai ser sufocado dentro de algumas horas. Só quando o
tempo esta bom, ou chove, é que aguentam mais. Desceram a colina e foram-se.
O Gólgota ficou quase silencioso. Os gemidos do ladrão continuaram.
Abutres surgiram no céu amarelado. A poeira dançava diante do sol. Um sol que
parecia pulsar, alternando tons verdes e purpúreos. Um sol que se assemelhava a
uma divindade ameaçadora que, certamente, não podia ser Deus”